terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O Ronaldo salvou o Natal


A maior contratação do Corinthians salvou o Natal dos brasileiros. Ocupou a manchete de todos os veículos de comunicação do país e do mundo. Também pudera, contratar um jogador de futebol que não joga desde 2002, ele deve ser mesmo um “fenômeno”.

Mas como disse, o Ronaldo salvou o Natal dos brasileiros, salvou o povo de viver algo que não é. Libertou a sociedade, por um lado, da influência da TV em transformá-la no que não tem costume. Transformar pessoas, pobres, ricas, políticos, empresários, seres comuns, em solidários e preocupados cidadãos brasileiros com o bem estar do próximo.

O Ronaldo salvou o Natal do país. Sabem por quê? Porque ele livrou o povo brasileiro de viver um Natal solidário com as vítimas da tragédia de Santa Catarina. Aquela enchente que assolou uma pobre cidade, sem condições de se reerguer pelas próprias pernas, que sofre todos os dias com falta alimentos e saneamento básico, com a falta de atenção e de ações de seus governantes. Que sofre com políticas mesquinhas e ultrapassadas. Que sofre com o esquecimento do restante do país. Cidade esta que só é lembrada quando uma terrível catástrofe ambiental atinge sua população, como a secas que castigam as lavouras, o gado, durante semestre inteiros, sem falar nas pessoas que residem em casas de barro que desmancham no chão quando que por um acaso divino, uma chuva torrencial cai sobre ela. Cidade também que possui os piores índices de sobrevivência humana do pais, onde morrem mais crianças do que nascem, onde todos são analfabetos ou semi-analfabetos.

O Ronaldo salvou os brasileiros de viverem um evento produzido pela TV, pela mídia. Porque estava ficando chato falar de Crise, de Dólar, de Euro. As eleições americanas já haviam terminado e o primeiro negro já havia sido eleito. O seqüestro da menina Nayara já havia terminado. Então talvez, ela poderia falar de futebol, com as finais do campeonato que estava na fase final?! Interessante, mas não pra todos, não para ela, à mídia, a TV. Por quê então não falar do trágico?! O que melhor conquistaria o interesse de todos senão falar em tragédia, falar da desgraça alheia, se alimentar dela. Foi o que a mídia fez. É certo que também comoveu. Arrecadou alimentos. Tonelada deles, como demonstrou bem o William Bonner ao vivo, com a Fátima nos estúdios cuidado dos tri-gêmeos.

A Mídia produziu o seu grande evento, cativou o brasileiro, mas o fez cativado por uma semi-mentira, o fazendo esquecer que sua generosidade está presente sempre consigo ao longo de seu dia. O fez pensar em ajudar o próximo, o induziu, não por vontade própria, por que se fosse isso, ele, o brasileiro (cidadão comum, político, empresário), já haveria se comovido para ajudar o lado de cima do país, aquele mais ao nordeste do Brasil. Ele, o brasileiro, já teria se interessado com a falta de atenção e esquecimento que as pessoas daquele lado do país, o núcleo pobre, têm sofrido há séculos, como a falta de políticas descentes de seus governantes bossais que não conseguem enxergar um palmo diante de seu colarinho.

Digo a você porque o Ronaldo salvou o Natal. Porque ele livrou o brasileiro de viver um Natal mentiroso produzido pela mídia, pelo William ao vivo, pelo Ressoar. Ronaldo conseguiu desviar a atenção da TV, ele chamou a mídia pra cima e marcou um golaço na cobertura de sua apresentação ao Timão. Foi e está sendo alvo de comentários ao longo de toda semana, conseguindo inclusive abafar o título de campeão brasileiro de futebol conquistado pelo rival de seu contratante.

Por hora, os brasileiros agora devem ser seres preocupados e solidários somente nas Últimas Notícias ou nas páginas intermediárias dos jornais impressos. Pelo menos até que a mídia queira que ele volte às manchetes de capa ou chamadas de início de tele-jornal.

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